Antero de Quental

As Fadas

“As fadas…eu creio nelas!

Umas são moças e belas,

Outras, velhas de pasmar…

Umas vivem nos rochedos,

Outras, à beira do mar…

Algumas em fonte fria

Escondem-se, enquanto é dia,

Saem só ao escurecer…

Outras, debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder…

O luar é os seus amores!

Sentadinhas entre as flores,

Ficam horas sem fim,

Cantando suas cantigas,

Fiando suas estrigas,

Em roca de ouro e marfim.

Umas têm mando nos ares;

Outras, na terra, nos mares;

E todas trazem na mão

Aquela vara famosa,

A varinha de condão!

Mas com tudo isto, as fadas

São muito desconfiadas:

Quem as vê não há-de rir,

Querem elas que as respeitem,

E não gostam que as espreitem,

Nem se lhes há-de mentir.

E têm vinganças terríveis!

Semeiam coisas horríveis,

Que nascem logo do chão…

Línguas de fogo,que estalam!

Sapos com asas, que falam!

Um anão preto! Um dragão!

Quantas vezes, já deitado,

Mas sem sono, inda acordado,

Me ponho a considerar,

Que condão eu pediria,

Se uma fada, um belo dia,

Me quisesse a mim fadar…

Oh, se esta noite, sonhando,

Alguma fada, engraçando

Comigo (podia ser)

Me tocasse coa varinha

E fosse minha madrinha,

Mesmo a dormir, sem a ver…

E que amanhã acordasse

E me achasse… eu sei! me achasse

Feito um príncipe, um emir!…

Até já, imaginando,

Meus olhos se estão fechando…

Deixa-me já já dormir!”

Keep dancing ****

Hoje venho aqui pedir-vos para permanecerem desse lado. Continuem a dançar comigo e nem precisam mexer os pés! Dancem com a alma aberta, dancem com o olhar e o sorriso.

Ainda estou deste lado, só mais ausente de palavras. Para o provar aqui deixo uma voz que adoro numa música cuja beleza é intemporal.

Até breve!

Álvaro de Campos

Mas Eu

“Mas eu, em cuja alma se reflectem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagónicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstracto, eu o projectado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água.”

Ricardo Reis

Segue o teu destino

"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."

Alberto Caeiro

Hoje de manhã saí muito cedo

"Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre 
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar."

                   

Florbela Espanca

Se tu viesses ver-me

"Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti..."